Não são todos os que apreciam poesia. Muitos podem achar que é besteira de idealistas. Posto, assim, um texto o qual mostra que para gostar de poesia não é preciso muito, basta gostar de ler.
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Publicado em 05.06.2008
Marcus Accioly marcusaccioly@terra.com.br
Para o leitor gostar de poesia, deve voltar ao ventre, ouvir seu choro e abrir os olhos novamente à luz. Em qualquer desses três estágios, deve haver alguma coisa esquecida que, se lembrada, poderá salvá-lo. Não importa até onde a memória consegue alcançar o passado. Quem olha um poço, quer tocar à água, mas, se não toca, pode ver seu rosto e olhar a cara de um menino olhando. Diz Nietzsche: "Se olhas longamente para dentro do abismo, o abismo olha também para dentro de ti". Gostar de poesia é gostar do que não se alcança e não se vê, mas, que ao se ver, também logo se alcança. Jean Cocteau, explicando o poeta, explica a poesia: "Para mim, o poeta é invisível. Aquele que anda nu impunemente". Outra lição remonta a Whitman – Folhas de relva: "Uma criança disse / O que é a relva? Trazendo um tufo em suas mãos, / O que dizer a ela?... Sei tanto quanto ela o que é a relva, / (...) Vá ver que a relva é a própria criança... o bebê grassado pela vegetação / (...) E agora a relva parece a cabeleira comprida e bonita dos túmulos".
Para o leitor gostar de poesia, precisa apenas entender uma citação de Cortázar: "O cervo é um vento escuro". Ora, o cervo – o gamo ou o veado – comparado ao vento escuro é o próprio salto na poesia, que transforma o vento no animal e o animal no vento. José Martì, na letra da canção – Guantanamera (que significa "garota de Guantánamo") diz: "Mi verso es un ciervo herido / que busca en el monte amparo". Por equívoco, eu cantava "ciervo herido", por "cielo herido". Quando descobri meu erro, comecei a pensar: a imagem de um céu sangrando a cor e buscando no monte algum amparo, é maior e mais bela, plasticamente, do que a de um cervo ferido. O tempo corrigiu meu "ledo engano": um céu, como uma asa, ou uma orelha ferida, buscando o apoio de um monte, à hora do crepúsculo, parece mesmo uma imagem bela. Contudo (ai, de mim!) falta a dor – elemento principal. Um cervo ferido, por menor que seja, é maior do que um céu ferido, pois um "céu ferido" não sente, mas um "cervo ferido" sofre.
Para o leitor gostar de poesia é preciso saber que o que escrevi acima – "hora do crepúsculo" – é um lugar-comum, um clichê como pôr-do-sol, arrebol, fim da tarde, lusco-fusco, etc. T. S. Eliot chamou – em The waste land – a este encontro do dia com a noite de – "hora violeta". Sim, porque para ele essa hora não é um tempo, é uma cor: a cor violeta, ou a cor mais usual da violeta, a ametista, o roxo. Assim, a tarde não se confunde com a manhã: as cores são distintas e as luzes também. Como a violeta é uma flor, a ametista é uma pedra e o roxo é uma cor triste – "a hora violeta" – é o instante em que morre a flor do sol e morre – pela cor – de uma tristeza, ou morre – pelo peso – de uma dor. Mas a palavra violeta pode designar outra lembrança, ou repetir um eco de lembranças. No meu caso, por exemplo, como tive uma cachorra chamada Violeta, se o leitor me conhece, não preciso dizer, ou digo através de Marguerite Yourcenar: "Não me consolo da morte dos meus cães".
Para o leitor gostar de poesia é preciso compreender um verso poderoso como o de Emerson – "Quando fogem de mim, eu sou as asas" – para que fique sabendo que, consciente ou inconscientemente, ele nunca foi deixado, mas deixou-se deixar, soprou do coração o próprio pássaro e o fez com que batesse as duas asas. É preciso compreender a dureza dos versos de Lugones – "Eu que sou montanhês sei o que vale, / a amizade da pedra para a alma" – pois alma e pedra, quando nascem juntas, conseguem ser e são a mesma coisa. O amor possui seus remanejamentos, que se entendam os versos de Zangwill: "Um dia, estando entre nós dois o Atlântico, / senti a tua mão na minha. / Agora, tendo a tua mão na minha, sinto entre nós dois o Atlântico". Do mesmo modo que venho repetindo um refrão, como uma paródia de Vinicius de Moraes – "Para viver um grande amor" – é preciso compreender Vinicius, no seu verso cantado e declamado: "Mas que seja infinito enquanto dure". Trata-se do infinito da duração – e não da duração do infinito. O momento que dura – ou que está durando – é o próprio infinito e seja assim, pois – como o amor do poeta – tudo quanto vive, existe enquanto dura, por isso o seu instante é infinito.
Basta um livro nas mãos e sob os olhos, para o leitor gostar de poesia.
» Marcus Accioly é poeta.
Marcus Accioly marcusaccioly@terra.com.br
Para o leitor gostar de poesia, deve voltar ao ventre, ouvir seu choro e abrir os olhos novamente à luz. Em qualquer desses três estágios, deve haver alguma coisa esquecida que, se lembrada, poderá salvá-lo. Não importa até onde a memória consegue alcançar o passado. Quem olha um poço, quer tocar à água, mas, se não toca, pode ver seu rosto e olhar a cara de um menino olhando. Diz Nietzsche: "Se olhas longamente para dentro do abismo, o abismo olha também para dentro de ti". Gostar de poesia é gostar do que não se alcança e não se vê, mas, que ao se ver, também logo se alcança. Jean Cocteau, explicando o poeta, explica a poesia: "Para mim, o poeta é invisível. Aquele que anda nu impunemente". Outra lição remonta a Whitman – Folhas de relva: "Uma criança disse / O que é a relva? Trazendo um tufo em suas mãos, / O que dizer a ela?... Sei tanto quanto ela o que é a relva, / (...) Vá ver que a relva é a própria criança... o bebê grassado pela vegetação / (...) E agora a relva parece a cabeleira comprida e bonita dos túmulos".
Para o leitor gostar de poesia, precisa apenas entender uma citação de Cortázar: "O cervo é um vento escuro". Ora, o cervo – o gamo ou o veado – comparado ao vento escuro é o próprio salto na poesia, que transforma o vento no animal e o animal no vento. José Martì, na letra da canção – Guantanamera (que significa "garota de Guantánamo") diz: "Mi verso es un ciervo herido / que busca en el monte amparo". Por equívoco, eu cantava "ciervo herido", por "cielo herido". Quando descobri meu erro, comecei a pensar: a imagem de um céu sangrando a cor e buscando no monte algum amparo, é maior e mais bela, plasticamente, do que a de um cervo ferido. O tempo corrigiu meu "ledo engano": um céu, como uma asa, ou uma orelha ferida, buscando o apoio de um monte, à hora do crepúsculo, parece mesmo uma imagem bela. Contudo (ai, de mim!) falta a dor – elemento principal. Um cervo ferido, por menor que seja, é maior do que um céu ferido, pois um "céu ferido" não sente, mas um "cervo ferido" sofre.
Para o leitor gostar de poesia é preciso saber que o que escrevi acima – "hora do crepúsculo" – é um lugar-comum, um clichê como pôr-do-sol, arrebol, fim da tarde, lusco-fusco, etc. T. S. Eliot chamou – em The waste land – a este encontro do dia com a noite de – "hora violeta". Sim, porque para ele essa hora não é um tempo, é uma cor: a cor violeta, ou a cor mais usual da violeta, a ametista, o roxo. Assim, a tarde não se confunde com a manhã: as cores são distintas e as luzes também. Como a violeta é uma flor, a ametista é uma pedra e o roxo é uma cor triste – "a hora violeta" – é o instante em que morre a flor do sol e morre – pela cor – de uma tristeza, ou morre – pelo peso – de uma dor. Mas a palavra violeta pode designar outra lembrança, ou repetir um eco de lembranças. No meu caso, por exemplo, como tive uma cachorra chamada Violeta, se o leitor me conhece, não preciso dizer, ou digo através de Marguerite Yourcenar: "Não me consolo da morte dos meus cães".
Para o leitor gostar de poesia é preciso compreender um verso poderoso como o de Emerson – "Quando fogem de mim, eu sou as asas" – para que fique sabendo que, consciente ou inconscientemente, ele nunca foi deixado, mas deixou-se deixar, soprou do coração o próprio pássaro e o fez com que batesse as duas asas. É preciso compreender a dureza dos versos de Lugones – "Eu que sou montanhês sei o que vale, / a amizade da pedra para a alma" – pois alma e pedra, quando nascem juntas, conseguem ser e são a mesma coisa. O amor possui seus remanejamentos, que se entendam os versos de Zangwill: "Um dia, estando entre nós dois o Atlântico, / senti a tua mão na minha. / Agora, tendo a tua mão na minha, sinto entre nós dois o Atlântico". Do mesmo modo que venho repetindo um refrão, como uma paródia de Vinicius de Moraes – "Para viver um grande amor" – é preciso compreender Vinicius, no seu verso cantado e declamado: "Mas que seja infinito enquanto dure". Trata-se do infinito da duração – e não da duração do infinito. O momento que dura – ou que está durando – é o próprio infinito e seja assim, pois – como o amor do poeta – tudo quanto vive, existe enquanto dura, por isso o seu instante é infinito.
Basta um livro nas mãos e sob os olhos, para o leitor gostar de poesia.
» Marcus Accioly é poeta.
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