sábado, 12 de julho de 2008

No dia em que eu vim embora

Ciclo de vida. Esse é um ensinamento a mais que eu enxergo nesses versos feito por Dimas Lins, um dos participantes do grupo de emails do Sexta-Feira Poesia.
"Outro dia, escutando a música No dia em que vim-me embora, de Caetano e Gil, resolvi me arriscar em uns versos, que acabei publicando no meu blog, o Estradar." Dima Lins

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No dia em que eu vim embora

No dia em que eu vim embora,
Não encontrei alegria em nada,
Senti saudade de casa,
Morri de medo aqui fora.

No dia em que eu vim embora,
Minha mãe me abraçou,
Meu pai me consolou,
E disse “meu filho, é hora”.

No dia em que eu vim embora,
Deixei tanta coisa pra trás,
Parti aflito, sem paz,
Tremi ao me ver mundo afora.

No dia em que eu vim embora,
Carregava apenas a esperança,
Saí sem dinheiro ou herança,
Levei só a dor de quem chora.

No dia em que eu vim embora,
Ir já não parecia tão certo,
Quase desisti, cheguei perto,
Que eu perguntei a Deus: “e agora?”

No dia em que eu vim embora,
Deixei discos, cadernos e livros,
Ficaram também os amigos,
Criança, rapaz e senhora.

No dia em que eu vim embora,
Muita gente na estação,
Tanto adeus, tantas mãos,
Tanta tristeza que aflora.

No dia em que eu vim embora,
Meu pai disse pra eu ser forte,
Minha mãe desejou boa sorte,
E pediu pr’eu escrever sem demora.

No dia em que eu vim embora,
Não prestei atenção na paisagem,
Encolhi e chorei na viagem,
Que nem vi beleza na aurora.

No dia em que eu vim embora,
Deixei um pedaço de mim,
Dizer adeus foi como um fim,

Pois às vezes a saudade apavora.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro

Quando durmo, a paz reina meus sonhos. Quando acordo, os mesmos sentimentos que eu havia deixado de lado a noite voltam e me assombram...como no dia anterior. Talvez seja melhor apenas durmir, quem sabe assim eu encontro a paz.
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Quando hoje eu acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.


- Manoel Bandeira.

Para o leitor gostar de poesia

Não são todos os que apreciam poesia. Muitos podem achar que é besteira de idealistas. Posto, assim, um texto o qual mostra que para gostar de poesia não é preciso muito, basta gostar de ler.
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Publicado em 05.06.2008
Marcus Accioly
marcusaccioly@terra.com.br

Para o leitor gostar de poesia, deve voltar ao ventre, ouvir seu choro e abrir os olhos novamente à luz. Em qualquer desses três estágios, deve haver alguma coisa esquecida que, se lembrada, poderá salvá-lo. Não importa até onde a memória consegue alcançar o passado. Quem olha um poço, quer tocar à água, mas, se não toca, pode ver seu rosto e olhar a cara de um menino olhando. Diz Nietzsche: "Se olhas longamente para dentro do abismo, o abismo olha também para dentro de ti". Gostar de poesia é gostar do que não se alcança e não se vê, mas, que ao se ver, também logo se alcança. Jean Cocteau, explicando o poeta, explica a poesia: "Para mim, o poeta é invisível. Aquele que anda nu impunemente". Outra lição remonta a Whitman – Folhas de relva: "Uma criança disse / O que é a relva? Trazendo um tufo em suas mãos, / O que dizer a ela?... Sei tanto quanto ela o que é a relva, / (...) Vá ver que a relva é a própria criança... o bebê grassado pela vegetação / (...) E agora a relva parece a cabeleira comprida e bonita dos túmulos".

Para o leitor gostar de poesia, precisa apenas entender uma citação de Cortázar: "O cervo é um vento escuro". Ora, o cervo – o gamo ou o veado – comparado ao vento escuro é o próprio salto na poesia, que transforma o vento no animal e o animal no vento. José Martì, na letra da canção – Guantanamera (que significa "garota de Guantánamo") diz: "Mi verso es un ciervo herido / que busca en el monte amparo". Por equívoco, eu cantava "ciervo herido", por "cielo herido". Quando descobri meu erro, comecei a pensar: a imagem de um céu sangrando a cor e buscando no monte algum amparo, é maior e mais bela, plasticamente, do que a de um cervo ferido. O tempo corrigiu meu "ledo engano": um céu, como uma asa, ou uma orelha ferida, buscando o apoio de um monte, à hora do crepúsculo, parece mesmo uma imagem bela. Contudo (ai, de mim!) falta a dor – elemento principal. Um cervo ferido, por menor que seja, é maior do que um céu ferido, pois um "céu ferido" não sente, mas um "cervo ferido" sofre.

Para o leitor gostar de poesia é preciso saber que o que escrevi acima – "hora do crepúsculo" – é um lugar-comum, um clichê como pôr-do-sol, arrebol, fim da tarde, lusco-fusco, etc. T. S. Eliot chamou – em The waste land – a este encontro do dia com a noite de – "hora violeta". Sim, porque para ele essa hora não é um tempo, é uma cor: a cor violeta, ou a cor mais usual da violeta, a ametista, o roxo. Assim, a tarde não se confunde com a manhã: as cores são distintas e as luzes também. Como a violeta é uma flor, a ametista é uma pedra e o roxo é uma cor triste – "a hora violeta" – é o instante em que morre a flor do sol e morre – pela cor – de uma tristeza, ou morre – pelo peso – de uma dor. Mas a palavra violeta pode designar outra lembrança, ou repetir um eco de lembranças. No meu caso, por exemplo, como tive uma cachorra chamada Violeta, se o leitor me conhece, não preciso dizer, ou digo através de Marguerite Yourcenar: "Não me consolo da morte dos meus cães".

Para o leitor gostar de poesia é preciso compreender um verso poderoso como o de Emerson – "Quando fogem de mim, eu sou as asas" – para que fique sabendo que, consciente ou inconscientemente, ele nunca foi deixado, mas deixou-se deixar, soprou do coração o próprio pássaro e o fez com que batesse as duas asas. É preciso compreender a dureza dos versos de Lugones – "Eu que sou montanhês sei o que vale, / a amizade da pedra para a alma" – pois alma e pedra, quando nascem juntas, conseguem ser e são a mesma coisa. O amor possui seus remanejamentos, que se entendam os versos de Zangwill: "Um dia, estando entre nós dois o Atlântico, / senti a tua mão na minha. / Agora, tendo a tua mão na minha, sinto entre nós dois o Atlântico". Do mesmo modo que venho repetindo um refrão, como uma paródia de Vinicius de Moraes – "Para viver um grande amor" – é preciso compreender Vinicius, no seu verso cantado e declamado: "Mas que seja infinito enquanto dure". Trata-se do infinito da duração – e não da duração do infinito. O momento que dura – ou que está durando – é o próprio infinito e seja assim, pois – como o amor do poeta – tudo quanto vive, existe enquanto dura, por isso o seu instante é infinito.

Basta um livro nas mãos e sob os olhos, para o leitor gostar de poesia.

» Marcus Accioly é poeta.